Motor 1 e 2 de Crescimento na prática: os casos de Blockbuster, Netflix e Nelson Piquet


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A inovação é importante para qualquer empresa, de qualquer porte ou setor, isso é um fato. Inovar é preciso para prosperar no longo prazo, mas cuidar do presente também é importante para manter o negócio vivo e competitivo no curto prazo. Por isso, é preciso ter equilíbrio na hora de destinar energia, esforço, tempo e dinheiro entre os projetos atuais e os projetos do futuro. O conceito de Motor 1 e 2 de Crescimento (Bain & Company) ilustra esse movimento de cuidar do presente para investir no futuro. E o quê Nelson Piquet tem a ver com esse conceito? Tudo, afinal o tricampeão mundial de Fórmula 1 aplicou esse conceito para começar a empreender.


Na teoria, o conceito de Motor 1 e 2 de Crescimento, cunhado pela empresa de consultoria norte americana Bain & Company, é simples: cuidar do seu presente (produto atual) enquanto investe no futuro (inovar o seu produto). Sendo assim, para uma empresa continuar competitiva em um futuro nem tão distante assim, é necessário investir de forma equilibrada no seu motor 1 e no seu motor 2. O motor 1, ainda segundo a empresa, é o seu atual produto ou serviço, o responsável pela receita atual de sua organização. Enquanto o motor 2, por sua vez, é o futuro; é a inovação do seu atual produto ou serviço (motor 1) que permitirá que a empresa se mantenha viva e/ou competitiva no futuro.


Na prática, implementar esse conceito é um grande desafio e, se feito de maneira equivocada ou desequilibrada, de nada adiantará. A chave para conseguir colocar os motores 1 e 2 em prática na sua empresa é o equilíbrio. Não adianta focar apenas no futuro e deixar de lado os seus atuais produtos e serviços, aos poucos seus clientes irão notar a queda na qualidade e vão trocá-lo pela concorrência. No entanto, não adianta focar apenas no seu presente, nos produtos e serviços atuais, e deixar o futuro de lado, ignorando as tendências que seu mercado pode seguir nos próximos anos. Sim, esse último exemplo é o mais fácil de ser encontrado no mundo corporativo e já vitimou algumas grandes empresas que um dia já foram líderes de seus mercados por resistirem às mudanças.

Para exemplificar o perigo de ignorar as tendências do mercado e focar apenas no seu produto ou serviço atual, trazemos o exemplo da Blockbuster. A empresa era líder de seu mercado e foi a maior rede de locadora de filmes e videogames no seu auge. Em 2007, por exemplo, a rede operava em 26 países, tinha mais de 8 mil lojas com mais de 70 milhões de associados e com um valor de mercado avaliado em quase US$ 500 milhões. E o que aconteceu para a empresa pedir concordata já em 2010 e, em 2014, sumir por completo? Negligenciaram o seu futuro. Na verdade, o que sobrou no final foi: uma empresa que prestava um excelente serviço – quem não amava ir a uma Blockbuster? A experiência era fantástica! – que não tinha mais utilidade para as pessoas, estava ultrapassado. Quem ignora o motor 2 e foca apenas no motor 1 está fadado a ficar obsoleto.


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E, para colocar uma pitada de ironia no caso da Blockbuster, nada melhor do que falar sobre a empresa que inovou o mercado de locação de filmes e criou o mercado de streaming. A Netflix foi fundada em 1997 e até 2007, era uma empresa de locadora de filmes que tinha como diferencial enviar os DVDs dos filmes que os clientes queriam por correio. E, em 2007, o mesmo ano desses números expressivos e concretos da Blockbuster, a Netflix começou a implementar o serviço de streaming nos Estados Unidos. A Netflix aplicou o conceito de motor 1 e 2 à sua realidade com perfeição. Afinal, enquanto estava implementando o seu serviço de streaming, a empresa não cancelou e nem mudou o serviço dos seus primeiros clientes que preferiam receber os DVDs pelo correio. A empresa tomou conta por completo do presente e investiu no seu futuro. Enquanto isso, a Blockbuster ignorava o crescimento do streaming, achava que não iria afetar o seu negócio e muito menos o mercado.


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O conceito original de Motor 1 e 2 de Crescimento discorre sobre empresas e organizações e a necessidade de inovação por parte delas. No entanto, podemos extrapolar esse conceito e aplicá-lo a pessoas também, principalmente quando falamos de empreendedorismo. E, para exemplificar na prática, um caso de sucesso brasileiro: Nelson Piquet e a Autotrac.


A história começa com Nelson Piquet ainda como piloto de Fórmula 1, entre 1988 e 1989. O tricampeão chegou cedo para uma determinada corrida e por isso ficou prestando atenção nos bastidores do circo da F1. Observou tudo. Mas foi um caminhoneiro que chamou sua atenção. Piquet reparou um caminhoneiro tenso, nervoso e, curioso com aquela situação, foi ao seu encontro para entender o porquê daquela angústia. O caminhoneiro explicou que estava atrasado e, como o seu caminhão era rastreado pela empresa, os donos, diretores e gerentes sabiam exatamente onde ele estava, onde precisava chegar e em quanto tempo esse trajeto deveria ser realizado. Piquet nunca tinha escutado algo parecido sobre esse rastreamento de caminhão feito via satélite e ficou intrigado. Então, procurou saber se havia, no Brasil, algum sistema parecido em atuação naquela época.


A resposta era não. O Brasil não tinha nada parecido e, nos anos que se passaram Piquet foi pesquisando sobre o assunto, entendendo como o sistema funcionava e o que era necessário para operá-lo. No entanto, o interesse nesse futuro empreendimento não atrapalhou seus resultados nas pistas, claro. Piquet foi terceiro colocado no campeonato de Fórmula 1 em 1990, com 2 brilhantes vitórias e sexto colocado na temporada de 1991, seu último ano na categoria, tendo conquistado sua última vitória. Após sua aposentadoria da F1, Piquet se dedicou a pesquisar por completo sobre essa tecnologia que tanto o intrigava. Em resumo, o tricampeão fundou a sua empresa de monitoramento de frota, entre outros serviços. E, passados mais de 27 anos a empresa continua com resultados expressivos, premiações e sendo referência em seu meio. A Autotrac, empresa fundada por Nelson Piquet e que atua em todo o território nacional, é hoje a empresa líder e mais premiada do seu segmento de atuação.



Nelson Piquet no Grande Prêmio da Austrália, em 1986. Fotógrafo: Paul-Henri Cahier | Crédito: Getty Images. Direitos autorais: Paul-Henri Cahier

O caso de Nelson Piquet é importante, pois nos mostra que o conceito de Motor 1 e 2 de Crescimento também pode ser aplicado por pessoas e não apenas empresas. Pessoas com o objetivo de empreender e começar um novo negócio precisam ter esse conceito bem assimilado e, mais do que isso, precisam colocá-lo em prática. Esse exemplo mostra o tricampeão colocando os Motores 1 e 2 em prática: mesmo com a ideia de fazer algo novo, de investir em uma nova ideia, Piquet não tirou o foco do seu presente, dos seus resultados na F1. E, conforme o tempo passava, ia cada vez mais pesquisando para um dia tirar esse sonho do papel. Sem negligenciar o seu motor 1, Nelson Piquet investiu no seu futuro, o motor 2. O caso mostra que independente de sua função, cargo, hierarquia dentro de uma organização, você precisa entregar os resultados no seu emprego atual e, enquanto isso, começar a idealizar o que você quer resolver, qual problema seu negócio irá solucionar, como irá solucionar e para quem irá solucionar.


Neste ano de 2020, ainda estamos enfrentando os desafios do novo coronavírus e, além do gigantesco número de mortes pela doença, os impactos no âmbito econômico também não podem ser esquecidos. Muitas empresas fecharam, a maioria por não ter uma reserva de emergência, outras por não conseguirem se adaptar ao cenário que se desenhou ao longo dos meses de paralisação das atividades comerciais. Outras, no entanto, conseguiram de alguma forma sair dessa crise e continuar vivas, e os Motores 1 e 2 de Crescimento podem ser um dos motivos para tal. Afinal, as empresas que estão vivas hoje tiveram que mudar, de alguma forma, seu modo de operar. Conseguiram inovar em um curto espaço de tempo e rapidamente por o futuro em prática. Por outro lado, empresas que ficaram fechadas esperando a reabertura do comércio não resistiram. E nem poderiam. O Motor 2 de Crescimento pode ser uma ferramenta muito vantajosa em momentos de crise; caso já haja um Motor 2 em andamento, em tempos adversos, a empresa terá apenas que colocá-lo em prática, corrigindo-o conforme o tempo passa. Por outro lado, empresas que entram em momentos turbulentos sem um Motor 2 minimamente elaborado não terão chances nesse novo cenário. O mercado quando está em crise fica muito mais severo e disruptivo. E ficar na inércia nesse cenário não poder ser uma opção.


Independente se você, leitor, é um(a) empresário(a) já com uma vivência no mercado, um(a) empreendedor(a) começando a tirar suas ideias do papel, ou um(a) funcionário(a) de alguma organização que sonha em um dia ter seu próprio negócio, tenha sempre em mente: ficar parado e apenas acompanhar o mercado não te levará a lugar nenhum. Esteja sempre preparado, foque, desenvolva e melhore constantemente o seu produto ou serviço atual sem se esquecer de investir na disrupção deste produto. Tenha sempre o conceito de Motor 1 e 2 de Crescimento como premissa na sua empresa, onde seu objetivo será destruir o seu modelo de negócio atual. Afinal, se não investir nessa inovação... alguém irá, e quando se der conta que o mercado está mudando de curso será tarde demais. Não seja uma Blockbuster, seja uma Netflix. E, para você que está querendo começar o seu empreendimento, seja um Nelson Piquet. Não fique apenas tendo devaneios e deixando o presente de lado. O futuro é o que a gente faz hoje, no presente. E se não nos preparamos hoje para o futuro, o que será de nós no futuro?



RAFAEL SANTORO

Empreendedor, MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing pela PUCRS, formado em administração pela UNILASALLE-RJ.

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